Sabores e aromas que deixaram saudade – o Bolo Rei

Em receitas | 17/12/2013Comentários

Para vos trazer algo especial fiz uma imersão pelo meu passado gastronômico, recordei histórias de família e momentos que merecem ser compartilhados.

Tenho muito presente os cheiros e os sabores da minha infância. A minha mãe é uma cozinheira exímia, de talento natural, inigualável, autodidacta. Somos três irmãs e nenhumas das três é tão talentosa e criativa, na cozinha. Por esta razão, as refeições eram sempre um momento desejado. A nossa mesa era sempre farta, nenhuma refeição atendia só à necessidade de alimentar o corpo. A alma era também nutrida. Associada a esta lembrança, recordo a alegria da minha mãe de juntar a família à mesa. Aqueles eram momentos sagrados e de partilha. Um ritual que perdurou até à nossa vida adulta.

A cozinha da minha mãe era um espaço democrático para onde ela nos atraía com a promessa que nos deixaria colocar a mão na massa. Desse regresso ao passado selecionei uma receita, muito tradicional no natal em Portugal, e que nunca faltava à nossa mesa – o Bolo Rei. Naqueles tempos, lembro do imenso tigelão, de mim e das minhas irmãs que entre risadas e empurrões amassavamos, esticávamos, enrolávamos e íamos comendo pedaços da massa crua sob o olhar reprovador mas divertido da D. Madalena. Aqueles momentos eram sinônimo da época. Hoje o ritual repete-se comigo e com as minhas filhas. Assim, todo o dia 26, o cheiro a pão, a frutos secos e a vinho do Porto invade a nossa casa e faz as delícias da família na primeira refeição.

Dá uma certa nostalgia pensar nestes momentos, mas a sensação que fica é muito boa, de uma imensa felicidade!

 

Esta receita foi preparada na minha cozinha por mim e pela minha petit Chef Joana. É uma versão mais leve que original do Bolo Rei. É que aprendi com a minha mãe a reduzir, sempre, o pouco a quantidade de açucar em receitas ricas.

 

Receita:

Farinha – 625 g

Açúcar – 100 g

Manteiga – 125 g

Fermento de Padeiro – 20 g

Ovos – 4

Leite – 1 dl

Corintos, nozes e pinhões, de cada – 50 g

Sal fino – 10 g

Vinho do Porto – 2 c. de sopa

 

Nozes, amêndoas, pinhões, cerejas cristalizadas, figos verdes cristalizados, abóbora cristalizada, Casca de laranja e de limão cristalizada, granito de açúcar e gema de ovo q.b.

 

Brinde e fava seca – facultativo

 

Preparo:

De véspera, pelo fim da tarde ou à noite, dissolve-se o fermento num pouco de água tépida e amassasse com 125 g de farinha. Faz-se uma bola, que se deita numa tigela cheia de água tépida. Quando boiar, estará suficientemente lêveda.

Peneira-se a restante farinha para um tigelão juntamente com o sal e o açúcar.

Põe-se em cima os ovos, o leite e a bola fermentada e amassa-se, juntando-lhe aos poucos a manteiga amolecida em banho-maria, sovando e batendo a massa nas bordas do alguidar, como se amassa o pão, até ficar fofa. Tapa-se o tigelão com um pano e envolve-se num cobertor.

Põe-se de molho no Vinho do Porto os corintos, os pinhões e as nozes.

Na madrugada, a massa deve estar inchada e arrendada. Junta-se-lhe as frutas que ficaram de molho, torna-se a amassar, deita-se sobre a pedra enfarinhada e divide-se em duas partes, que se tendem em dois rolos, sobre a pedra da mesa.

Une-se cada um pelas pontas em redor de uma lata cilíndrica, alta e enfarinhada, medindo 7 a 8 cm de diâmetro – estas operações já devem ser feitas dentro de tabuleiros forrados com papel grosso bem untado com manteiga e polvilhado com farinha. As latas impedem que os bolos ao crescerem na cozedura, percam o clássico formato do buraco central.

Tapam-se com um pano e deixam-se descansar durante três horas, em um lugar onde não haja correntes de ar, metem-se dentro de cada um brinde embrulhado e uma fava seca, pincelam-se com gema de ovo e guarnecem-se por cima com o granito de açúcar e as frutas secas e cristalizadas. Polvilham-se com açucar e cozem-se em forno forte.

 

Dica: para dar aquele brilho especial ao Bolo Rei, faço uma calda de açucar  (fraca) e pincelo por cima.

 

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